E aí o tempo não passa. o que é cruel por motivos muito além da minha impaciência. É impossível aproveitar o tempo parado. ninguém se diverte numa sala de espera. E é nela mesma que eu estou. Na sala de espera. Esperando pra ver o médico. O médico vai me dar remédios e aí eu vou piorar um pouco, e depois melhorar.
eu tenho esse hábito de insistir em todas as coisas erradas, por isso mesmo vou insistir nessa analogia (ela, pelo menos, não vai destruir meu fígado, cérebro, pulmão ou coração). estou esperando, inconformada, e puta da vida porque minha hora não chega nunca. Quando ela finalmente chegar, eu já vou estar pronta pra ela há muito tempo. Quem está mal e não quer melhorar não vai no médico. Eu fui, quero melhorar. Quero que essa angústia toda vá embora e me deixe em paz. Só por estar doente consigo apreciar tudo que eu tinha antes de ficar mal. É tão bom não ter dores de cabeça. Eu lembro.Tem uma emergência na minha frente, eu deixo de lado todos meus problemas e deixo quem está muito mal passar na minha frente, apesar de saber que estou tão mal quanto, só não estou fazendo alardes e soltando fogos de artifício. Tudo bem. E não é o tempo na sala de espera nem o tempo passado depois da morte que vai me fazer melhorar. Isso é uma mentira que contam pros desesperados, e que eu acreditei por muito tempo. Eu preciso saber o que há de errado comigo, exatamente. Geralmente é uma virose, dessas que todo mundo pega quando tá todo mundo doente, e ninguém sabe o que é, mas dessa vez não é. É meu coração que quebrou. Mil pedacinhos. Que eu joguei no ventilador e se espalharam por aí. E quando eu souber exatamente isso, vai haver uma cura.Tratar do mal com o mesmo mal, sabe? Mas eu não estou pronta pra vacina. Eu preciso melhorar antes. Destilar esse veneno e guardar os anti-corpos. A prevenção não adianta quando você já está doente. Eu vou esperar passar. Pelo menos a dor física. E aí vou estar mais forte, mas sempre vou ter essas marcas. Igual catapora. Tão igual, que eu nunca mais vou pegar. E vou para sempre poder lembrar disso com meus amigos que também já tiveram catapora, e ficaram do meu lado quando os outros não podiam. Mas se esperar bastasse, ninguém morreria. Tem é que ter a vontade de levantar quando estou jogada. E eu nunca faço nada quando estou com febre e isso ainda vai me matar.E a maldita hora não chega nunca. E eu só consigo gritar por dentro, e o exisetencialismo e toda sua dor estão tão evidentes que eu me sinto extremamente pueril. Tão cheia de negação que não consigo admitir publicamente que tenho mais urgência do que os casos de aparente emergência. Até porque eles pensam exatamenteamesmacoisa.Tem esse menino, que me liga todos os dias. Ele me leva pra passear. Ele quer tardes agradáveis de domingo, com café, conversa jogada fora e um sorriso de último dia de férias maravilhosas que só tinhamos quando eramos crianças. E eu não atendo o telefone. Ele liga 7, 8 vezes e eu fico paralisada, olhando o telefone. E o telefone continua tocando. E logo, ele vai desistir de mim. E eu queria conseguir pedir desculpas pra ele… mas acho que nunca vou ter coragem. Porque eu não sei o que está acontecendo. Eu não consigo ignorar a dor e ser feliz. É só um caso de domingos. Eu sei que só se propõe a ser isso. E há um ano e meio, isso teria feito de mim uma garota extremamente feliz. Mas esse ano veio, ficou e passou.Ontem já acabou e hoje está cada vez pior, mas tomorrow, como já diria a minha xarazinha, is only a day away.E quando eu acordar e perceber que estou sendo hoje, vou saber que tudo está bem e que se eu me proponho a curar uma dor que pensei ser para sempre, não vai haver nada que seja para sempre, nem as coisas boas. E é exatamente por isso que não vou deixar de aproveitá-las. Porque o menino que me liga não vai estar aí amanhã, e isso não é algo que eu esteja pronta para admitir até que ele não esteja mais, mas isso vai mudar. Esse meu lado acha que coisas duram para sempre. Ele precisava não de uma, mas várias provas do contrário. e bem… os votos foram contados: estou pronta para admitir que nada dura para sempre. Agora é só continuar repetindo isso até acreditar. Igual religião.
eu tenho esse hábito de insistir em todas as coisas erradas, por isso mesmo vou insistir nessa analogia (ela, pelo menos, não vai destruir meu fígado, cérebro, pulmão ou coração). estou esperando, inconformada, e puta da vida porque minha hora não chega nunca. Quando ela finalmente chegar, eu já vou estar pronta pra ela há muito tempo. Quem está mal e não quer melhorar não vai no médico. Eu fui, quero melhorar. Quero que essa angústia toda vá embora e me deixe em paz. Só por estar doente consigo apreciar tudo que eu tinha antes de ficar mal. É tão bom não ter dores de cabeça. Eu lembro.Tem uma emergência na minha frente, eu deixo de lado todos meus problemas e deixo quem está muito mal passar na minha frente, apesar de saber que estou tão mal quanto, só não estou fazendo alardes e soltando fogos de artifício. Tudo bem. E não é o tempo na sala de espera nem o tempo passado depois da morte que vai me fazer melhorar. Isso é uma mentira que contam pros desesperados, e que eu acreditei por muito tempo. Eu preciso saber o que há de errado comigo, exatamente. Geralmente é uma virose, dessas que todo mundo pega quando tá todo mundo doente, e ninguém sabe o que é, mas dessa vez não é. É meu coração que quebrou. Mil pedacinhos. Que eu joguei no ventilador e se espalharam por aí. E quando eu souber exatamente isso, vai haver uma cura.Tratar do mal com o mesmo mal, sabe? Mas eu não estou pronta pra vacina. Eu preciso melhorar antes. Destilar esse veneno e guardar os anti-corpos. A prevenção não adianta quando você já está doente. Eu vou esperar passar. Pelo menos a dor física. E aí vou estar mais forte, mas sempre vou ter essas marcas. Igual catapora. Tão igual, que eu nunca mais vou pegar. E vou para sempre poder lembrar disso com meus amigos que também já tiveram catapora, e ficaram do meu lado quando os outros não podiam. Mas se esperar bastasse, ninguém morreria. Tem é que ter a vontade de levantar quando estou jogada. E eu nunca faço nada quando estou com febre e isso ainda vai me matar.E a maldita hora não chega nunca. E eu só consigo gritar por dentro, e o exisetencialismo e toda sua dor estão tão evidentes que eu me sinto extremamente pueril. Tão cheia de negação que não consigo admitir publicamente que tenho mais urgência do que os casos de aparente emergência. Até porque eles pensam exatamenteamesmacoisa.Tem esse menino, que me liga todos os dias. Ele me leva pra passear. Ele quer tardes agradáveis de domingo, com café, conversa jogada fora e um sorriso de último dia de férias maravilhosas que só tinhamos quando eramos crianças. E eu não atendo o telefone. Ele liga 7, 8 vezes e eu fico paralisada, olhando o telefone. E o telefone continua tocando. E logo, ele vai desistir de mim. E eu queria conseguir pedir desculpas pra ele… mas acho que nunca vou ter coragem. Porque eu não sei o que está acontecendo. Eu não consigo ignorar a dor e ser feliz. É só um caso de domingos. Eu sei que só se propõe a ser isso. E há um ano e meio, isso teria feito de mim uma garota extremamente feliz. Mas esse ano veio, ficou e passou.Ontem já acabou e hoje está cada vez pior, mas tomorrow, como já diria a minha xarazinha, is only a day away.E quando eu acordar e perceber que estou sendo hoje, vou saber que tudo está bem e que se eu me proponho a curar uma dor que pensei ser para sempre, não vai haver nada que seja para sempre, nem as coisas boas. E é exatamente por isso que não vou deixar de aproveitá-las. Porque o menino que me liga não vai estar aí amanhã, e isso não é algo que eu esteja pronta para admitir até que ele não esteja mais, mas isso vai mudar. Esse meu lado acha que coisas duram para sempre. Ele precisava não de uma, mas várias provas do contrário. e bem… os votos foram contados: estou pronta para admitir que nada dura para sempre. Agora é só continuar repetindo isso até acreditar. Igual religião.

